A TRADUÇÃO NÃO É UM BISCATE!

Abril 28, 2018
MoniaFilipe

 

Nos tempos que correm, persiste a ideia de que a tradução pode ser realizada por qualquer pessoa que tenha conhecimentos básicos de uma língua estrangeira. Para além desta crença (infundada), há quem considere que devido ao acesso quase omnipresente de ligação à internet, a tradução se encontra na categoria das atividades que todo o nómada digital pode fazer para ir equilibrando o orçamento mensal.

A edição de março/abril da publicação Dinheiro & Direitos da DECO contava com um artigo intitulado “Ganhe dinheiro online”, no qual incluem a tradução como uma das várias opções para ganhar dinheiro extra. A nossa colega Mónia Filipe, tradutora com mais de uma década de experiência, escreveu à DECO a manifestar o seu desagrado e a detalhar com rigor as razões pelas quais a quase leviandade com que foi considerada a profissão de tradutor é totalmente descabida.

” A tradução não é um biscate! “
Estimados Senhores,

Na publicação Dinheiro & Direitos da DECO de março/abril de 2018, saiu um artigo intitulado “Ganhe dinheiro online”. Nele, enumeram-se várias opções para ganhar dinheiro extra, como a venda por particulares de objetos usados no OLX ou o preenchimento de inquéritos online que revertem em pontos, os quais podem depois ser trocados por dinheiro ou produtos, entre outros. A par disto, apresenta-se também a tradução como uma possibilidade de ganhar uns trocos.

Enquanto tradutora, sinto-me indignada com a forma como este artigo apresenta a nossa profissão. Eu e vários outros colegas de profissão que partilham da minha opinião! Em nome desses meus colegas e como associada da APTRAD – Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes, venho apresentar oficialmente a minha crítica a este artigo publicado pela DECO.

Sou associada da DECO (Nº Sócio: 1672600-29) há quase tanto tempo como sou tradutora. Pretendo continuar a sê-lo, pois considero a DECO como uma associação de excelência na defesa do consumidor que já me ajudou a esclarecer algumas questões jurídicas e a reaver dinheiro de um ginásio mal-intencionado. Posto isto, quero deixar bem claro que a minha crítica não é à DECO, mas sim ao artigo em questão da Dinheiro & Direitos, nomeadamente, à parte do artigo em que se fala de tradução.

E porque é que o artigo causou tanta indignação no seio dos tradutores profissionais?

Como se sabe, não há (ainda) nenhuma Ordem dos tradutores. Não temos cédula profissional, nem há, em Portugal, a figura do tradutor ajuramentado como se conhece noutros países. Logo, o tradutor que faz uma tradução com base nos conhecimentos e experiência adquiridos ao longo de anos de estudo e de componente prática, não pode certificar as suas próprias traduções. Apenas os notários ou os advogados o podem fazer. Qualquer pessoa pode ir ao cartório certificar uma tradução, não tendo de apresentar qualquer documento comprovativo da sua formação/profissão, bastando uma declaração oral e apresentação do documento de identificação. Um dos principais objetivos da APTRAD é mudar esta situação e tenho fé de que, em breve, haverá uma Ordem que regule a profissão. Mas, enquanto isto não acontece, cabe-nos a nós, tradutores, dar alguma dignidade à nossa profissão e corrigir interpretações, a meu ver, erradas como as que se expõem neste artigo.

Há dois pontos principais que gostaria de abordar.

Primeiro, a ideia de que a tradução é um biscate que qualquer pessoa com bons conhecimentos linguísticos pode desempenhar, nas horas vagas, para compor o orçamento mensal. Não estou a querer dizer que, para se ser um bom tradutor, é condição indispensável ter formação na área. Há muito de vocação nesta profissão. Também há médicos que não foram talhados para a profissão e, no entanto, exercem-na. No entanto, não passa pela cabeça de ninguém que qualquer pessoa com gosto pela medicina possa ir fazer horas num hospital a atender doentes nas urgências. Ou que qualquer pessoa com bom poder de argumentação se possa voluntariar nos tribunais para ir defender uns arguidos. Porque lhe dá jeito ganhar uns trocos. Então, porque é que parece ser da opinião geral que qualquer pessoa com bons conhecimentos de uma língua possa fazer umas traduções nas horas vagas?

Para realizar traduções de qualidade, para além da vocação, são necessários excelentes conhecimentos linguísticos consolidados por vários anos de estudo a nível superior, especialização numa determinada área, muitas vezes, estadia num país estrangeiro e formação contínua. Além disso, enquanto trabalhadores independentes (a realidade de uma grande maioria do universo desta profissão) torna-se necessário um investimento contínuo ao longo da carreira, seja na aquisição de softwares de tradução que lhes permitem agilizar os processos de trabalho e alimentar glossários e memórias de tradução, seja na subscrição de dicionários online, de quotas de adesão em sites para tradutores ou de associações profissionais. Como qualquer outra, esta profissão envolve muitos anos de estudo e conhecimento e uma formação contínua. Tal como um médico ou um advogado. É uma profissão como outra qualquer que só pode ser prestada com elevada qualidade por um profissional formado e qualificado. Ponto final.

Segundo, as dicas apresentadas pelo artigo como sugestão para enveredar por este biscate incluem plataformas de serviços de tradução que privilegiam, muitas vezes num sistema de leilão, as licitações mais baixas, aproveitando-se de estudantes, tradutores em início de carreira e biscateiros para pagar muito pouco por serviços de tradução. Não é pouco frequente oferecerem valores muito abaixo dos normalmente praticados, ao mesmo tempo que exigem prazos que apenas consegue cumprir quem deixa de ter horários, noites, fins de semana… Por isso, não compreendo como é que uma associação de defesa dos consumidores pode recomendar empresas deste género que contribuem para baixar deslealmente o valor da tradução e retirar dignidade ao papel do tradutor.

Muito havia ainda a dizer sobre isto, mas não pretendo alongar-me mais. Ficaria muito grata se pudesse obter uma resposta por parte dos editores da DECO e reverter, com a opinião aqui apresentada, a ideia errada que se faz da tradução.

Agradeço desde já a atenção prestada.

(Enviado à DECO em 22/03/2018)”

 

Sobre a autora: Mónia Filipe

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa com pós-graduações em tradução e legendagem na UNL, na Universidade Humboldt de Berlim e no ISLA. Trabalhou como tradutora interna no período entre 2007 e 2014, data em que resolveu lançar-se ao desafio e conquistar o seu próprio espaço na indústria da tradução.

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